do PAI QUE EU TIVE

08/07/2013

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Pai erra. Erra muito. Erra feio. Pai é gente.

O pai que eu tive teria (sim, há controvérsias) completado noventa anos domingo passado, 7/7/2013. Provavelmente apagou conosco, numa realidade paralela vizinha,  velinhas que por aqui não sopra há duas décadas.

Não me viu casar. Não me viu virar gente grande, adulto responsável cumpridor de obrigações e pagador de impostos. Não me viu virar pai.

Deixou lembrança, mas não herança, e de exemplo muito do que não fazer. Sofreu e morreu, envergonhado por, na última milha da caminhada, depender (pra tudo) de outro alguém, dentre os quais este a quem ele chamava de “comunista”; sim, pra ele era ofensa.

Chorar quando tudo terminou esteve além das minhas possibilidades, e terapia nenhuma foi (ainda) suficiente pra passar a limpo essa relação, do fim pro começo.

Saudades do que poderia ter sido.

Defeito aos borbotões tinha o pai que eu tive, mas, no limite, quem de nós é santo? Céu não faz sentido haver, Inferno muito menos, Purgatório é como devíamos chamar esse tempo que por aqui passamos tropeçando e caindo e levantando entre o “não existir” e o “deixar de existir”. Pois meu pai existiu, fez-se presente, me criou e é metade do que carrego nos cromossomos já devidamente perpetuados. Agiu como agiu, fato, humano no que isso tem de melhor e de pior.

Tinha história, e histórias; moral pouca, final nem sempre feliz. Ele ficou, eu sigo. E me lembro, “Seu” Jaime, me lembro. E entendo. E aceito.

do IMPEACHMENT DIVINO

29/06/2013

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Daí pensei cá comigo: em tempos de manifestação popular dia sim, dia não, talvez tivesse sido o caso de o pessoal hoje nas ruas em Marcha para Jesus aproveitar para questionar os rumos da atual Administração. As coisas visivelmente não andam bem.

Sei lá, ateu que sou, se é assim que funciona, mas proponho aos camaradas de fé refletir se já não passou da hora de pedir o Divino Impeachment.

Motivo não falta. Um aqui, trágico e contundente quanto tantos outros. Suponho, claro, não ser o caso de culpar o Capiroto, que sabidamente (vide Jó) só faz o que lhe permite o Patrão.

Mais a mais, o clamor das multidões talvez pressionasse o Supremo Mandatário em questão a pronunciar-se em rede obrigatória de rádio e televisão, mostrando a cara (ou o arbusto flamejante) em lugar dos que hoje Dele se dizem representantes na Terra enquanto cagam regra quanto a Adão não poder preferir Ivo a Eva. A quantas andam as pesquisas de opinião pública, afinal?

Bom, é só uma idéia. Essa tal “voz do povo” não é a minha, nunca foi. E os deuses parecem estar surdos.

do FALECIDO HAMSTER E A POEIRA CÓSMICA

03/05/2013

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Um minuto de silêncio, por favor: morreu hoje pela manhã Chico, o hamster. Um ano e quatro meses. Zeus o tenha.

Devidamente ensacado: confesso, fiquei em dúvida (muito por culpa daquilo de “o ciclo sem fim” da versão brasileira do Elton John na trilha sonora do Rei Leão) quanto a classificar o cadáver como “reciclável” ou “não-reciclável”, mas obviamente enterro cristão não rolou.

Baby Felipe não entendeu, deu até risada; Princesa Jujuba gastou algumas lágrimas, mas não há de guardar trauma; Henrique, o primogênito, ficou inconsolável e escandalizou geral. Claro, já tinha o bichinho perdido 110% da graça e “negligência” era a palavra de ordem quanto ao assunto “animal de estimação” lá em casa, mas para o moleque foi como se tivesse perdido um parente. Triste.

Menos mal, rolou aquela oportunidade básica de falar com as crianças sobre os fatos da vida, resumidos no banal “tudo o que é vivo um dia morre”. Ainda aproveitei pra discutir com as crianças aspectos de imortalidade ou “vida após a vida” presentes na transmissão de DNA de pai pra filho, na doação de órgãos e na descoberta de que tudo o que nos forma e ao mundo em que vivemos fez parte um dia de uma estrela sem nome nos primórdios do Universo que, na morte, gerou possibilidade de vida em forma de poeira cósmica.

Hamster morto, hamster posto, quem sabe, mais à frente, caso me convençam os petizes ter aprendido algo com o finado pet.

de CHECK-INS E CHECK-OUTS

16/03/2013

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Check-in: “você se expõe demais”.

Defina “demais”. Ou não defina, afinal não preciso ser convencido de absolutamente coisa nenhuma: importa menos a justificativa que a percepção, e há pessoas nesta vida cuja opinião definitivamente me importa. In a way.

Privacidade não é hoje o que era há dez anos, e em outros cinco (cadê Google Glass?) o conceito talvez já mereça recauchutagem. Esconder o quê? De quem? Por qual motivo? Preocupado eu até estaria, não fosse tão graúda minha irrelevância. Informação demais, interesse de menos.

Foursquare, fim da linha: foi bobo enquanto durou. Até a volta, já que o mundo há de continuar redondo mesmo depois do meu check-out.

de JULIANA, A PRINCESA

04/03/2013

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São tão desinteressantes quanto eu meus filhos, aliás também os filhos dos outros, e na mesmíssima proporção. Exceto para quem os pariu, deles cuida, para eles vive.

Falo então, a quem interessar possa, da filha Ju, tão princesa quanto assim me permito enxergá-la a despeito do quão equivocado é o estereótipo reforçado diuturnamente pela Disney.

(claro, nem tudo é culpa da cabeça congelada do patriarca Walt, aguardando num freezer subterrâneo de Orlando que a medicina possa um dia revivê-lo)

Questão é a seguinte: Julie querida é a cara da mãe, mas tem muito do gênio do pai. Diz “oi” de longe. Dá “tchau” em lote, já em fuga. Não beija, no máximo permite ser beijada.

Não é sempre assim, obviamente, nem com todo mundo, mas comigo economiza demonstrações de afeto e, triste como possa soar, enxerga como tortura a possibilidade de ter que um dia dançar com este lhe deu o sobrenome a valsa de “A Bela e a Fera”; foge disso como o diabo da cruz, ou, para reposicionar o clichê, reage a isso como um menino Damien levado à pia batismal.

Tudo isso pra dizer que hoje à noite me abraçou, a pequena, espontaneamente, do nada, no meio de uma partida de Nintendo Wii. E se aconchegou no meu colo. E disse “pai, você é legal”. E soou sincero.

Desejar mais que isso, sei, até posso. Mas não devo. Já estou no lucro.

do MEDÍOCRE

01/03/2013

mediocreMedíocre. Do latim “mediocris”. Adjetivo. Substantivo masculino. Dicionarizemos, pois: que não me deixe mentir sozinho o pai dos burros.

“Que está entre o grande e o pequeno, o bom e o mau”.

Caminho do meio é o que se quer, né não? Sem excessos ou desequilíbrios: ruim o que não cabe, ainda pior o que deixa folga. Na dúvida, prefira o medíocre. Encaixe perfeito.

“Falta de criatividade ou originalidade, característica do que é comum, mediano”.

Previsibilidade é a chave: inventar pra quê? Antes a mediocridade conhecida (e confortável) que a incerteza volátil do ótimo, não por acaso inimigo do bom. E você aí correndo atrás do rabo em busca da tal excelência.

“Algo ou alguém que não tem grande valor intelectual ou capacidade para realizar algo, sem talento e que está abaixo da média: os medíocres nunca alcançarão o sucesso”.

Sucesso? OVERRATED. Talento? Dá trabalho demais. Medíocre é o novo “fodástico”.

“Comum, inexpressivo, meão, mediano, modesto, pequeno, remendão, trivial e vulgar”.

Resumo da ópera? Gente como a gente. Medíocre é aquele com quem você consegue se identificar. Mais que isso é pedantismo.

Diria Oscar Wilde: “A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre”.

Complementaria Nietzche: “No convívio com sábios e artistas facilmente nos enganamos no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes por detrás de um artista medíocre - um homem muito notável”.

Quem sou eu para, do alto da minha mediocridade, ousar tentar contrariá-los?

“Anagrama: merecido”.

Coincidência? Ninguém merece.

da ARQUIBANCADA VAZIA

27/02/2013

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Uma árvore cai na floresta. Não há ninguém por lá. Há barulho?

Com a resposta as arquibancadas vazias do Pacaembu nesta noite de quarta-feira. Segunda partida na Libertadores-2013 do atual campeão Corinthians, e o silêncio decerto há de se mostrar ensurdecedor.

Não, não vamos falar sobre Kevin. Morreu o garoto boliviano, e mais importante, alguém o matou. Num estádio de futebol. Puna(m)-se o(s) culpado(s), e, dica importante, não são os onze alvinegros em campo nem os trinta milhões de fiéis fora dele.

Também não vamos falar sobre hooligans ou sobre o que a UEFA fez com os clubes ingleses em fins dos 1980s: Jesús Bermúdez não é Heysel, muito menos Hillsborough. Diria ET Bilu nesse caso, pura e simplesmente: BUSQUEM. CONHECIMENTO.

Torcidas organizadas não me interessam, mas, embora eu não seja capaz de ignorar o quanto cheira a PCC a propalada “lealdade, humildade e procedimento” capaz de responder com pescoção um grito antecipado de “gol” de um compatriota alvinegro (gavião ou não), também não compactuo com a ingênua idéia de que, extintas a canetadas, desapareçam junto com o problema.

Questão nevrálgica é o entendimento regulamentar de “extensão do time”, trazendo à esfera desportiva justificativa para indevida punição de ato criminal (e criminoso): quem assinou (lendo ou não) bobagem assim provavelmente achava que esse tipo de coisa só acontecia com os outros, ou com as torcidas dos outros.

Talvez fosse o caso, na prática, de encerrar aqui, voluntariamente, a caminhada do time nesse torneio. Problema é que aí talvez (quem sabe?) caíssemos, nós e todo mundo, na real: nada disso importa. Campeonato nenhum, jogo nenhum.

Como assim, “the show must go on”? Por trás das cortinas só o que há na prática são vinte e dois marmanjos correndo na grama com as pernas de fora atrás de uma bola. O resto são fumaça e espelhos, e vida que segue. Pra quase todos nós.

da LOUÇA NA PIA

17/02/2013

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Queria eu ser capaz de dizer que New Order (“Blue Monday”, “Ceremony” e “Bizzarre Love Triangle”, nessa específica ordem) torna minimamente palatável essa tarefa.

Mas não: foi ainda indizivelmente chato e inapelavelmente maçante lavar a louça acumulada na pia no final do domingo, esse 2012 dos dias da semana.

(nota mental: tentar Ramones da próxima vez)

Queria eu poder dizer que enquanto lavava a louça tive uma epifania qualquer, revelando a mim a derradeira verdade sobre o que a Gracyanne vê no Belo ou o que o Belo vê na Gracyanne. Meditação com mãos ensaboadas e mente desperta.

Mas não: pensei apenas, confesso, em tentar adicionar a pia da cozinha ao Foursquare.

Queria eu entender essa minha empreitada como inequívoca demonstração de que finalmente supero, antes tarde do que nunca, os grilhões comportamentais de uma criação machista em um mundo falocêntrico que tem o ato de lavar louça, bem como as demais tarefas da administração doméstica, como óbvia obrigação feminina, que quando eventualmente assumida pelo espécime masculino da casa o é em equivocado caráter de favor, de ajuda, jamais de partilha de responsabilidade.

Mas não: mea culpa, mea maxima culpa, não lavo metade da louça que deveria, mínima parte que me cabe neste latifúndio. Porque é chato pra caralho lavar louça. E que Sísifo me perdoe.

das PRINCESAS DISNEY

29/01/2013

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Daí estava eu logo cedo pela manhã tentando explicar à minha filhota Jujuba quão absurda é essa premissa Disney de que uma mulher só pode ser feliz (para sempre) alcançando a perfeição estética e comportamental que se exige de uma princesa, assim fazendo jus ao príncipe encantado por quem será finalmente salva do dragão e resgatada da torre mais alta do castelo.

Filhota aparentemente entendeu. Tanto que disse: “verdade, pai, a mamãe também não arrumou um príncipe e mesmo assim é feliz”.

de NICOLE BAHLS E A LEI DE GIL

18/10/2012

Nicole Bahls. Ou BALLS. Concordarão muitos comigo, trata-se do travesti mais bonito do Brasil. Tão gracinha quanto desprovida de noção.

não libera a entrada de serviço, ora pois. Lei de Gil, alguém?

Supostamente “tem um monte de mulher por aí fazendo isso”, e por não aceitar “ficar sentindo dor para segurar homem” a ex-paniquete acaba, esse é o diagnóstico se entendi direito, perdendo namorado após namorado. Daí “abrir o coração” ao Ego, desiludida, afirmando que “homem só serve para magoar o nosso coração”.

Difícil discordar, mas boto reparo: será mesmo por conta do que Nicolezinha faz ou deixa de fazer na cama que pula a cerca o cabra da vez?

Equivocado também, é claro, o automático entendimento de que “Devassa mesmo é a Sandy“: hímen intacto às custas de outras formas de prazer sexual, incluindo (entre 298 outras combinações carnais) a dita penetração anal, é coisa que desde tempos imemoriais mantém viva a indústria do véu e grinalda. Culpa católica à parte (ou até com a bênção papal), indispensáveis mesmo entre as proverbiais quatro paredes são camisinha e entendimento entre as partes, sem os quais é tudo pecado em qualquer lado do Equador, até porque no Equador é mais forte.

De todo modo, muito mais doloroso que um último tango em Paris é dona BALLS, que até prova em contrário paga ela mesma (sem me dever qualquer satisfação) suas próprias contas, declarar que “não nasceu pra sustentar homem”, e que “eles querem vida boa e só querem malhar enquanto a gente trabalha”.

Fico cá eu pensando que tipo de homem é esse que nesse contexto se apresenta até às mais disputadas musas, querendo tudo e mais 10%, eternamente insatisfeito com o feijão-com-arroz caseiro, sempre de olho no cuscuz da vizinha. Mimado. Imaturo. Egoísta.

Caso clássico, Mister Catra que me perdoe, de perguntar “e na bundinha, não vai nada?”. OK, melhor não perguntar. Questão de furo íntimo.


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